segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Observando imagens radiológicas de um osso no estágio da ossificação ou enrijecimento, sou levado a
refletir sobre o meu próprio esqueleto da fé. Como cristão recém-nascido, a minha fé era frágil e maleável,
consistindo em crenças vagamente compreendidas sobre Deus e minha necessidade do seu amor. Com o tempo,Deus serviu-se da Bíblia e de outros cristãos para promover a ossificação da estrutura da minha fé. Da mesma forma que os osteoblastos depositam em um osso novos minerais resistentes, a substância da minha fé tornou-se mais forte e confiável. O Senhor tornou-se o meu Senhor; doutrinas que eram frias e formais tornaram-se parte integrante do meu ser.
A ala evangélica da fé, de modo especial, tende a fazer crer que todas as respostas podem ser codificadas
em uma declaração abrangente de fé. Quem questiona doutrinas básicas é às vezes tratado como um estranho no
Corpo de Cristo e é obrigado a passar pela humilhação da culpa e da rejeição. Por esse motivo, no mundo
evangélico, a dúvida é muitas vezes um fenômeno privado. Aquele que, dentre nós, é tentado a ostentar esse tipo de severidade, deve retornar à analogia dos ossos vivos. Os novos crentes precisam de tempo para que os ossos de sua fé se fortaleçam.
Provei muitos períodos de dúvida. Na Índia, sentia-me desafiado pelos encantos de outras religiões praticadas com devoção por milhões de pessoas. Na escola de medicina, estive constantemente exposto a
hipóteses de que o universo se baseia no acaso, não havendo espaço para um Arquiteto inteligente. Tendo lutado com essas e outras questões — problemas sobre a pessoa de Cristo, a confiança na Bíblia etc. —, aprendi que às vezes é útil continuar aceitando como regra de vida coisas a respeito das quais cultivo incertezas intelectuais básicas. Em outras palavras, aprendi a confiar no esqueleto principal e a usá-lo mesmo quando não consigo entender como vários ossos se articulam e por que alguns têm determinada configuração.Na escola de medicina, estudei com biólogos seculares como J. B. S. Haldane e H. H. Woolard, pioneiros da teoria evolucionista. Notei que algumas igrejas nutriam uma espécie de desonestidade intelectual sobre esse assunto. Na universidade, seus alunos faziam exames e recitavam teorias da evolução; quando se juntavam à igreja, declaravam sua fé de uma forma que contradizia as respostas acadêmicas. No fim essa dicotomia levava a um sentimento de esquizofrenia intelectual.
Foi só depois de muita pesquisa e longos períodos de reflexão que consegui juntar o que havia aprendido
na igreja e o que havia aprendido na escola. Mas, no entanto, decidi que a minha fé se baseava em realidades que podiam sustentar-se e não precisavam submeter-se a nenhuma explicação científica. Ou eu descobriria que a evolução era compatível com o Deus da minha fé, ou eu concluiria que a evolução estava de alguma forma errada, e ficaria com a minha fé. Servi-me desse pressuposto por anos durante os quais era incapaz de preencher todas lacunas sobre como a criação e a evolução se encaixam. (Em anos recentes, um novo entendimento sobre o DNA tornou a hipótese de uma evolução aleatória tão improvável que a posição de quem acredita em uma inteligência sobrenatural tem sido tremendamente reforçada.)
Em algum lugar da América do Sul, há uma ponte feita de trepadeiras entrelaçadas que sustentam sobre um rio uma plataforma precariamente suspensa a dezenas de metros de altura. Eu sei que a ponte já agüentou
centenas de pessoas ao longo dos anos, e enquanto estou parado à margem do rio vejo outros atravessando por ela, cheios de confiança. O engenheiro dentro de mim quer pesar todos os fatores — medir a capacidade de as trepadeiras sustentar o peso, testar se a madeira não está infestada por cupins, inspecionar as pontes da região para ver se há alternativa mais confiável. Mas no fim, se eu realmente quiser atravessar, devo tomar uma decisão. Quando ponho o meu peso sobre aquela ponte e a atravesso, mesmo que o meu coração esteja batendo forte e os meus joelhos tremam, estou declarando a minha posição.
No mundo cristão, eu às vezes preciso viver assim, fazendo escolhas que comportam uma incerteza inerente. Se eu esperar para ter todas as provas, para que tudo seja resolvido, nunca seguirei adiante. Com freqüência tive de agir baseando-me nos ossos da fé cristã antes que eles estivessem totalmente formados em mim e antes de entender a razão da sua existência. Osso é duro, mas é vivo. Se os ossos da fé não continuarem a crescer, eles logo se tornarão esqueletos mortos. A verdade não pode contrair-se e depois relaxar como um músculo. Ou é rígida e confiável como um osso sadio, ou é inútil.

                               Philip Yancey no livro  FEITO DE UM MODO ESPECIAL E ADMIRÁVEL )

Nenhum comentário:

Postar um comentário